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Jornal: Valor Econômico
Título: “Tesouro a Descobrir”
Data: 29/12/2006
Crédito: Luciana Monteiro

Um investidor de perfil conservador procurou o Valor para reclamar do retorno de suas aplicações. Indignado com o ganho líquido que obteve recentemente em um fundo DI, esse investidor perguntou o que fazer com o dinheiro para ganhar mais sem correr grandes riscos. Acostumado com retornos rechonchudos durante muitos anos, ele não se sente mais tão confortável com a rentabilidade proporcionada pelo fundo com os juros em 13,25% ao ano.

O que esse investidor e vários outros estão percebendo no bolso é que os fundos DI e de renda fixa que cobram taxas de administração de 3%, 4% ao ano e pagam imposto de renda de até 22,5% sobre os ganhos começam a perder boa parte da atratividade. Além disso, há a incidência da CPMF de 0,38% para o dinheiro que ainda não está na conta-investimento. Somando tudo, uma aplicação de um mês em um fundo DI de taxa de administração de 4% ao ano resultaria em um ganho líquido de 0,19%, ou 2,35% ao ano. Se o juro cai para 12%, o investidor levará para casa 0,12%, ou 1,43% ao ano, já sem CPMF.

Uma alternativa para quem quer continuar na renda fixa e não tem como conseguir uma taxa mais baixa em um fundo - o que exigiria valores de R$ 50 mil a R$ 100 mil de aplicação mínima - é o Tesouro Direto, sistema de negociação online de títulos do governo federal. Nele, não há taxa de administração, apenas a corretagem, cobrada na compra e venda do papel, e que varia de acordo com a corretora. Há também uma taxa de custódia anual de 0,40% para guardar os papéis.

O Tesouro Direto vem apresentando crescimento consistente. Em novembro, o número de investidores cadastrados era 49,31% maior que o do mesmo período do ano passado, chegando a mais de 71 mil. Em relação às vendas, o volume financeiro cresceu 14,12% sobre novembro de 2005. As Letras do Tesouro Nacional (LTNs), papéis prefixados, detêm a maior participação no estoque, com 32,04%.

Os especialistas alertam, porém, que, assim como nos fundos de investimento, é preciso ficar atento às taxas cobradas nas corretoras. Em alguns lugares, os custos são tão altos que o Tesouro Direto pode sair tão caro quanto um fundo de investimento com uma taxa de administração alta. Há corretoras onde o custo com a corretagem pode chegar a 4% ao ano (com pagamento mínimo de R$ 20,00), mais uma taxa de R$ 25,00. Bradesco e Itaú são instituições que não gostam de incentivar o Tesouro Direito, concorrente de seus fundos, e CDBs, e por isso têm taxas mais altas.

Com os juros em níveis menores, os investidores começam a fazer contas e muitas corretoras terão de reduzir taxas, diz Roberto Fargetti, gerente de renda variável da SLW Corretora. "O sistema corre o risco de ser somente um produto de prateleira se ficar caro", diz o executivo da SLW, onde a taxa de corretagem é de 0,5% sobre o valor da operação.

De olho nesse potencial de novos investidores, a corretora Ágora está mudando a forma de cobrança dos investimentos feito no Tesouro Direto. Antes o custo era fixo, de R$ 20,00. Agora, será cobrado 0,23% do valor aplicado, além da taxa da CBLC. "O cliente que comprava muitos títulos não pagava quase nada, enquanto os que compravam R$ 200,00 pagavam o equivalente a uma taxa de 10%, por isso resolvemos mudar", lembra Stelio Bastos Belchior, gerente de produtos da Ágora. Somando os 0,23% da corretagem com os 0,40% da custódia, o custo final ficaria em 0,63%, ainda competitivo em relação à maioria dos fundos de varejo. Pela regras do Tesouro Direto, o investidor pode fazer aplicações de cerca de R$ 80,00 (o equivalente a 0,2% do valor de um título) até R$ 400 mil.

Os números mostram que o pequeno investidor é o maior comprador dos títulos. De acordo com o relatório de novembro, as aplicações até R$ 1 mil representaram 30% das vendas. Em seguida está a faixa entre R$ 1 mil e R$ 2 mil, com 17,28%.

Cada vez mais a base de clientes do sistema está aumentando e o valor aplicado pelos clientes diminui, o que mostra que mais investidores menores estão aplicando, diz Carla Barretto, gerente de divisão da área de fundos de investimento do Banco do Brasil. A instituição, líder entre os agentes de custódia do Tesouro Direto, apresentou redução no valor médio por operação de R$ 12 mil, em 2005, para R$ 9 mil neste ano. Segundo a executiva, de 20% a 30% dos investidores do Tesouro Direto no BB já são de varejo. O restante estão nos segmentos de varejo de alta renda e private.

Muitos investidores de bolsa utilizam o Tesouro Direto como margem de garantia, o que tem contribuído para fomentar as aplicações no sistema. É o caso da Socopa, onde grande parte dos investidores do Tesouro também aplica em ações via home broker, conta Marcos Monteiro de Barros, diretor da corretora. Por isso, a instituição não cobra dos investidores qualquer taxa para a aplicação no Tesouro Direto.

Para o ano que vem, as perspectivas continuam favoráveis. Segundo Carla, a expectativa é de que o BB registre crescimento de pelo menos 20% da carteira de aplicações, mesmo percentual atingido neste ano. "Com a queda da Selic, é natural que as pessoas busquem diversificar suas aplicações para tentar manter os mesmos ganhos expressivos dos anos anteriores", avalia.

A migração de investidores de fundos para o Tesouro Direto tende a acontecer, mas não deve ser maciça já que demanda um certo conhecimento do investidor sobre os tipos de papéis, avalia Fernando Marques, operador de renda fixa da Ativa Corretora. Após uma mudança estratégica de nicho de mercado, a instituição tem dado mais foco à pessoa física e o Tesouro Direto também deve ganhar atenção especial. A corretora cobra, além da taxa da CBLC, corretagem de 0,2%.



     

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