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Jornal: Valor Econômico
Título: “A saga do Tesouro”
Data: 04/11/2006 – 09h30
Crédito: Adriana Cotias


Recorrer ao Tesouro Direto - o sistema de negociação de títulos públicos pela internet - para fugir das altas taxas de administração cobradas em muitos fundos de varejo, de até 5% ao ano, dá um trabalho danado. Em algumas corretoras ligadas a bancos privados, os custos chegam a ser proibitivos. Isso ocorre porque, na prática, o investimento via Tesouro Direto representa concorrência aos fundos. A opção aparece como mais acessível entre as instituições públicas que, até por terem vínculo com o governo, colocam a venda desses ativos como uma possibilidade concreta para o investidor.

Um cliente do ex-BankBoston conta que após a venda do banco para o Itaú tentou obter informações sobre o Tesouro Direto na agência, depois pelo atendimento eletrônico, sem sucesso. Quando chegou à Itaú Corretora, caiu de costas: um funcionário informou cobrar 3,4% ao ano sobre o valor aplicado mais R$ 25. Mesmo sem fazer as contas, ele concluiu que os custos consumiriam fatia considerável do rendimento. Parte do dinheiro dele estava num fundo de renda fixa que cobra 3,10% ao ano.

Antenado à trajetória de queda dos juros, o aplicador pretendia adquirir R$ 10 mil em Letras do Tesouro Nacional (LTN, prefixadas), com vencimento em 1º de julho de 2008 para se beneficiar do movimento de queda da Selic e da tributação de 17,5% para aplicações com prazo acima de dois anos. Uma pesquisa feita pelo Valor entre as corretoras mais atuantes no sistema mostra que, dependendo da instituição escolhida, o retorno cai consideravelmente. "No Tesouro Direto estão disponíveis os mesmos ativos que estão nas carteiras da maioria dos fundos, muda apenas o veículo de investimento", diz o chefe do departamento de análise da CMA, Luiz Francisco Rogê Ferreira. "Mas tanto num quanto no outro, as despesas vão interferir diretamente na rentabilidade."

Se o investidor optasse pela corretora ligada ao seu banco, no final do prazo ele teria um rendimento líquido de 16,3% (ou 7,2% ao ano). Se pesquisasse, encontraria taxas mais convidativas. E mais salgadas também. No Bradesco pagaria 4% ao ano, mais duas taxas fixas, com o rendimento caindo a 5,98% ao ano. Na Socopa, que cobra só 0,4% ao ano da Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC), o retorno seria de 10,52%. Entre uma opção e outra, a diferença no resgate seria de quase R$ 800, considerando-se os custos pagos na entrada e na saída.

Na Socopa, não cobrar pelo serviço é um estímulo para que o investidor centralize as operações de renda variável na corretora, diz o diretor Marcos Monteiro de Barros. "Os clientes usam os títulos federais para compor as margens (garantias) na Bovespa e na BM&F", diz. "E só com a taxa da CBLC, os papéis ficam com uma rentabilidade melhor do que a maioria dos fundos."

Entre os grandes bancos, também há possibilidades acessíveis. Pelo Unibanco Investshop (que cobra 0,35%), terceiro mais ativo no Tesouro Direto, o mesmo investidor obteria um retorno de 10,15% ao ano. No Banco Real, 10,10%, e no Banco do Brasil (BB), líder no ranking, 10% ao ano.

No BB, o Tesouro Direto integra o pacote de investimentos na internet e quem recorre à alternativa são as segmentações de alta renda, mais familiarizadas com os vaivéns dos ativos, afirma o gerente da área de fundos Rodrigo Ayub. Ele alerta que a aplicação é mais recomendável no longo prazo, uma vez que não há liquidez diária - o Tesouro se compromete a recomprar os papéis só às quartas-feiras - e vender os títulos antes do vencimento significa estar exposto às variações de preços no mercado. "Pode ser uma aplicação conservadora ou arriscada, dependendo do momento em que se faz o resgate."

Comprar papéis prefixados, por exemplo, é correr risco direto de taxa de juros. Se no meio da vida do papel escolhido der um qüiprocó na economia e o BC tiver de subir a Selic, a alternativa para o investidor é mudar de aplicação, diz Helio Pio Jr. , da Ágora. Na corretora, quem busca o Tesouro Direto é o cliente que começa a comparar os custos dos fundos e a migrar a parcela mais conservadora do investimento. "A corretora trabalha para munir o investidor de informações sobre cada papel, de acordo com o seu objetivo e mostrando que ganhos pode ter lá na frente."

Como são os títulos mais longos os que oferecem as melhores taxas, a aplicação em papéis do Tesouro vale mais para quem estiver pensando em acumular patrimônio, sugere a gerente da área de fundos do BB Carla Barreto. No Banco Real, é esse perfil mais poupador que recorre aos títulos federais, conta o diretor de mercado, Marc Elder Olichon. "Os investidores estão cada dia mais cientes do que ocorre no mercado, a demanda tem aumentado." A corretora saiu do 10º lugar no ranking do Tesouro em janeiro para a 4ª posição em setembro. O tíquete médio caiu de R$ 14,3 mil para R$ 8,2 mil.

Os prefixados são de longe os ativos mais procurados, mas com as mudanças prometidas pelo Tesouro já a partir de novembro, progressivamente, as LTNs devem ser substituídas por Notas do Tesouro Nacional série F (NTN-F), papéis com prazo de três, cinco e dez anos que pagam cupom semestral. A iniciativa faz parte da estratégia do governo de alongar o perfil da dívida pública. "Quanto maior o leque de opções, melhor", diz Olichon, do Real. "O investidor pode assumir o risco de taxas de juros agora e no longo prazo passa por qualquer turbulência."

Considerando-se que o juro real em 2007 vai estar na casa dos 8,30%, 8,40% ao ano, ainda vale correr risco direto de taxa de juros, avalia Ferreira, da CMA. Mesmo os títulos indexados ao IPCA, meio em baixa por conta da inflação menor, ainda são uma boa opção.



     

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